A fachada do 6 de Maio
Hugo Coelho, Philippe Carvalho, Tobias Spelz
Fora de Linha
10.05
No fim daestrada militar que vai das Portas de Benfica à Damaia, ergue-se um amontoado de casas cinzentas de betão. Nesta atravancada muralha há apenas uma brecha visível. A rua não tem mais de cinco metros de largo, mas está repleta de azafamados transeuntes. Um grupo de quatro rapazes aí permanece, alheios ao resto, em conversa animada. Falam crioulo caboverdiano, a língua oficial do 6 de Maio, um ghetto de imigrantes africanos na periferia de Lisboa.
Quando nos aproximamos, a conversa cessa. As atenções destes guardas de fronteira viram-se para os intrusos. Não são comuns as visitas de desconhecidos aobairro. A sua reputação desaconselha e desencoraja. O 6 de Maio é famoso por ser uma zona de tráfico de droga, onde violentas rusgas policiais fazem o enredo das suas histórias.
O receio é desnecessário. De pronto se prestam a ajudar-nos. Victor Manuel, 22 anos, mostra-nos o Centro Cultural, originalmente pintado de branco. “Aqui é que tem essas coisas da cultura que vocês procuram, mas hoje (sexta-feira) ‘tá fechado” diz. “Aí dentro os putos fazem capoeira, tocam berimbau, pandeiro, têm ajuda p’ra a escola e as raparigas ensinam-lhes a mexer nos computadores. Há computadores aí dentro” repete com orgulho.
Apesar do esforço das Irmãs Missionárias responsáveis pelo centro, a maioria dos jovens do 6 de Maio envredam pelos caminhos do roubo e da droga. Victor Manuel, conta-nos a sua história. “Até aos 11 anos, tava fora destas merdas todas. Depois ia para a escola e via todos com gandes ténis e cenas assim, pedia ao meu pai. Ele não podia comprar e eu comecei a roubar. A minha mãe perguntava d’onde é que vinham as cenas. Eu inventava. Dizia que a tia me tinha dado, que tinha achado e tal…”.
A vida de jovem delinquente acabou quando foi levado para o “colégio”, uma casa de correção. Aí tirou um curso de calceteiro e terminou o 12º ano. Hoje tem “a vida arrumada”. Com o curso arranjou emprego nas obras e até “recebe bem”. Por ironia, ao mesmo tempo que nos diz isto, dá, descontraidamente, um pequeno pacote para as mãos de um outro rapaz que passa. O crioulo volta a ouvir-se. De volta na mão traz uma nota que mete no bolso.
A visita ao bairro prossegue finalmente entrando na Rua do Sol. “Esta rua vai pelo bairro todo” dizem-nos. Apesar disso, não conseguimos ver mais longe do que 10 metros. Uma casa interpõe-se no caminho e obriga a rua a bifurcar-se. Na parede, escrito como um grafiti, lê-se “cabeleireiro”. Estes são os neons picadilescos do bairro. Estão por todo o lado. “O pessoal tem tudo o que quer aqui no bairro. Cafés, cabeleireiros, supermercados. Só p’ra gandes cenas é que precisamos sair” dizem-nos.
O cabeleireiro é um minúsculo espaço atravancado e sobre-povoado. Três raparigas fazem penteados em três jovens africanas. Uma está a meter tranças postiças. Outra faz tissagem, umas tranças que parecem coladas à cabeça. A última diz que está a fazer tranças de bailundo. Na lista de preços afixada no espelho, vemos os nomes de quase vinte tipos de corte e respectivos preços. A média anda por volta dos cinco euros. “São bem mais baratos do que nos cabeleireiros brancos”, dizem.
Quando voltamos a sair para a rua, Vitor despede-se. “Tenho d’ir buscar a miúda à creche”. Volta à sua vida no bairro que já faz parte da sua vida. “Se eu mandasse a única coisa que mudava aqui era dar um emprego sério a todos no bairro. Um com descontos e tudo, não esses contratos que os empreteiros nos arranjam. De resto isto ficava tudo na mesma, eu curto como está”, confessa.
