Os militares Portugueses no Kosovo sem lei
As pernas esticadas em cima de uma mesa de madeira, o olhar perdido não com o que vê mas com o que sonha, André Carvalhas parece um guerrilheiro do Che à entrada do quartel de Guevara.
O edifício atrás de si, em tempos um tribunal, está ocupado e marcado pela guerra. As salas de audiência e os gabinetes juízes ausentes estão cobertas de camas articuladas - que por aqui carinhosamente se chamam burros do mato -, de mobílias desfeitas e estantes desengonçadas com o peso de papeis arrumados ao calhas. As janelas estão algumas estão partidas e outras tapadas. E nas varandas sacos de areia cobrem o aço negro de espingardas.
Cá fora, no átrio, estão estacionados meia dúzia de carros de guerra e ao seu lado soldados rendidos fazem a barba em bacias de improviso ao sol da manhã.
Apesar das aparências, reina a paz e o sossego no improvisado quartel Português na cidade mais perigosa do Kosovo: Mitrovica.
Foi há três meses que a Companhia 13 dos Pára-quedistas Portugueses no Kosovo ocupou o tribunal distrital de Mitrovica.
Vieram para cá ao segundo dia de missão no rescaldo dos tumultos na cidade que destruíram o tribunal e confirmaram Mitrovica como o ponto mais quente do território do Kosovo.
Confirmação que não veio de surpresa. A História do Kosovo é a da guerra entre os Sérvios e os Albaneses que habitam e disputam a soberania desta província da antiga-Jugoslávia.
Desde que os Albaneses, maioritários no território e na capital Pristina, proclamaram unilateralmente a 15 de Janeiro a independência desta região da Sérvia que se esperava contestação e violência nos enclaves Sérvios.
“O Kosovo vive uma situação de calma tensa. Tudo está calmo mas o mínimo incidente pode começar uma guerra”, diz o capitão da companhia portuguesa, Nuno Silva. “Os Sérvios têm um sentido de nacionalidade muito elevado e consideram que Kosovo é a terra deles e o berço da nação. Não vão desistir dela a bem”.
Mitrovica é uma concentração inflamada dos ódios no país. A cidade e a população são cortadas em dois pelo rio Ibar. A sul vivem os albaneses e manda Pristina. A norte, onde vivem os Sérvios manda Belgrado. E é aqui que o conflito pode rebentar.
“Enquanto não os chatearem tudo está calmo. Mas quando vierem cá mandar nos Sérvios, então terão de os enfrentar”.
“Foi isso que aconteceu a 17 de Março. Os Sérvios barricaram-se no tribunal da cidade porque diziam estava era controlado pelos Albaneses. A tropa Francesa forçou a entrada, prendeu as pessoas e quis levá-las para Sul, para a zona albanesa. Então começou tudo”.
Ao terceiro dia de barricada rebentou a guerra.
Dentro do tribunal estavam os Sérvios que reclamavam com a voz de um país inteiro o direito aos empregos dos Albaneses. Vieram os Franceses e outros demais das forças internacionais no território, prenderam-nos e quiseram-nos levar para o outro lado do rio. Foi o crime que ninguém podia suportar.
De um momento para o outro a cidade ergueu-se. Os civis sérvios tornaram-se soldados, o tribunal, cuja saída foi barrada com um autocarro em chamas, um palco de guerra e os franceses e outros que tais, alvos a abater.
Da encosta em frente choveram balas. Cocktails molotov vieram da bomba de gasolina em frente. Voaram granadas de fragmentação, calhaus e tudo o que estava à mão e tinha asas para lá chegar.
Segundo os números oficiais na refrega morreu um ucraniano do lado dos bons, e um número indeterminado de sérvios do lado dos sérvios, que aqui ninguém sabe quem são os maus. Há quem diga que a companhia Francesa que tomou o tribunal ficou inteira. Há quem diga também que voltou para casa aos bocados.
“Afinal, na guerra há sempre duas histórias. A de um lado e a do outro”.
Aos visitantes que não param de vir ao tribunal o capitão Nuno Silva conta uma terceira versão com a ajuda dos destroços
Mitrovica: a cidade do Tribunal é hoje o principal show do Kosovo. Desde que o território foi pacificado pelas forças da NATO, há já quase uma década, que não houve confrontos tão graves quanto este.
Por isso, General estrangeiro que visite o teatro, e são muitos nesta altura decisiva para o país, tem bilhete reservado para as visitas guiadas do capitão Português.
“Quando chegámos ao tribunal o cenário de destruição dava para imaginar a confusão que foi dentro de edifício quando os militares Franceses avançaram. O ar estava contaminado com pó de extintor e da mobília quase nada ficou de pé. Hoje, está tudo mais limpo e arrumado. Mas ainda se vêm muitas marcas do que aqui se passou”.
Na torre a sudoeste, ao lado da janela do sétimo andar, está uma cratera na parede feita por um disparo francês de arma pesada. No chão, junto ao posto de vigilância norte, estão ainda balas de shotgun, caixas de granadas de fragmentação vazias e calhaus atirados pelos sérvios.
Os Portugueses viram os vídeos amadores dos confrontos e sabem apontar os pontos de onde os Franceses eram alvejados.
“Isto não é uma população civil. Todos têm armas”.
“Os Balcãs estão constantemente em guerra. Todos que aqui vivem sabem como defender-se. Depois muitos deles são veteranos do exército jugoslavo”.
“No dia 17, os franceses foram surpreendidos pela precisão militar dos Sérvios. Os comandantes foram os mais atingidos. Depois há o armamento… Há fortes suspeitam que há aqui mão dos serviços secretos Sérvios”
A prova esteve escondida bem perto do tribunal. Contíguo à vedação, a oeste, está um edifício que era o refeitório e cozinha da Trep^ca, principal empresa da região que controla as minas.
O refeitório, hoje um monte de mesas partidas e de cozinhas vazias com um cheiro a pestilenta podridão, escondeu muitos atiradores sérvios durante o dia 17. Quando os combates acabaram os militares da KFOR descobriram 300 máscaras de gás empacotadas no seu interior. Os Portugueses receberam então ordens para fechar o edifício pelo exterior.
A capacidade demonstrada pelos Sérvios justifica todas as medidas de segurança. O capitão da companhia
Portuguesa tem instaladas armas pesadas em várias varandas e janelas do edifício. Ao todo, são seis os pontos de vigia que cobrem as vias de aproximação por todas as direcções.
Para além disso, o batalhão recebeu de Portugal 1 500 granadas de gás lacrimogéneo para juntar às 1 000 que tinha trazido consigo.
“Face à situação que enfrentamos, todo o armamento é pouco”; diz o Capitão Português. “Nós só estamos aqui a impedir o acesso ao tribunal por pessoas não autorizadas. Por isso, só podemos usar a força letal em legítima defesa. Mas se for caso disso estamos preparados para atirar a sério”.
“Os Sérvios apanharam pela frente uma companhia de engenharia Francesa em rendição. Só que nós não somos mais os Engenheiros Franceses. Somos um força especial e sabemos andar ao tiro se for preciso. E eles sabem disso…”
Todos os dias às oito da manhã, meia centena de sérvios, antigos empregados do tribunal, juntam-se em frente ao edifício ocupado pelos portugueses.
Os concentracionistas não querem tomar o tribunal. Vêm dar o nome para que o governo de Belgrado lhes pague os ordenados devidos, eles que são impedidos de trabalhar nestas estranhas circunstâncias.
Por isso, o que de início casou sobressalto aos soldados já se tornou num hábito com três meses idade que, não só serve de despertador ao capitão Português, espelha a ironia deste país disputado e o caso insólito de uma cidade dividida.
O cúmulo, porém, são as consequências. Sem tribunal, Mitrovica transformou-se numa cidade sem rei nem lei. A política até continua na rua a fazer o seu trabalho mas não pode prender ninguém para julgamento.
Os tribunais municipal e regional eram os únicos que, por lei, podiam julgar esta população. Com o edifício encerrado não há quem condene os criminosos.
O problema seria grave não fosse a estranha civilidade dos Sérvios de Mitrovica..
“Não é por não haver tribunal que há crime na cidade”, diz o Capitão Português. “Apesar de todas as guerras que por aqui passaram as pessoas são civilizadas e respeitam-se sem precisarem de polícia. O que não tem solução são as regras de estacionamento. Aqui é que há estacionamento selvagem. Toda a gente para o carro em cima do passeio e ninguém paga multas de estacionamento”.
O encerramento do tribunal afecta também os advogados da cidade que ficaram sem emprego ou são obrigados ir trabalhar para outras regiões da Sérvia. Alguns destes homens, com escritórios no arredores do tribunal já são conhecidos da tropa Portuguesa.
De passagem pelos seus escritórios, três advogados perguntam ao sub-comandante da força portuguesa se sabe quando vão deixar o tribunal.
A resposta tem o tamanho e a incerteza da guerra. Apesar disso, os soldados Portugueses preocuparam-se em criar condições para o tribunal estar pronto a abrir assim que tal for possível e decidido.
Limparam muitas salas e corredores e vagaram o segundo andar, agora fechado e selado por antigos funcionários do tribunal e onde estão guardados os documentos de julgamentos que sobreviveram à destruição.
Quanto ao resto, o tribunal de três andares é casa e quartel de tropa.
Na ala norte do andar mais alto está a sala de Comando e os quarto do comandante e e do sub-comandante da companhia. Os soldados estão alojados, às meias dúzias por quarto, nos gabinetes da ala sul.
Ao lado, a sala de audiências foi feito local de convívio com televisão e ligação à internet. Na parede afixado está o seguinte aviso: “Este computador pertence ao Puto… Ele tem 80% sobre ele, os restantes 15% pertencem ao sargento e os outros 5% ao pelotão”. O Puto agora está em serviço. Quem cá está é o soldado Nuno Saraiva que após quatro horas nos postos de vigia, goza o sue merecido descanso. No Messenger, “fala com a família e a namorada e esquece a guerra e Mitrovica por uns momentos”.
Lá em baixo, o ginásio é livre-trânsito para quem quer manter a forma. Aqui tudo é desenrascado. Os alteres, por exemplo, são feitos com latas de tinta cheias de areia. A seguir, está o “Catacumbas”, o bar da companhia que vende café Português, Licor Beirão, e cerveja bebida ao som dos matrecos ou do Ping-Pong..
“Este é o nosso toquezinho de civilização”, diz o sub-comandante. “É um bocadinho de Portugal”.
A noite ainda não caiu no Kosovo quando dois carros de guerra saiem do parque tribunal. Levam três homens cada com colete anti-bala, capacete, e um em cada viatura está em cima destacado com uma metralhadora à sua frente pronta a disparar.
Virgílio, o condutor da carro do capitão, segue à frente pela rua principal abaixo até à ponte de Austerlitz. A ponte é a principal ligação entre a zona Albanesa e a zona Sérvia e por isso o local mais sensível da cidade.
Quando se aproximam o capitão dá ordem para parar. Do outro lado, está um ajuntamento que parece vir passar rio. Os soldados da patrulha contactam o centro de comando instalado no tribunal para pedirem informações aos militares Franceses que actuam do outro lado do rio.
Na resposta, os Franceses garantem que está tudo controlado e que ninguém vai cruzar a ponte. “Menos mal”, diz Nuno Silva. “Se os albaneses passarem para este lado teremos de intervir”.
Apesar de combaterem todos sob a bandeira da NATO e da ONU, os exércitos da KFOR são muito ciosos das suas zonas de responsabilidade. Aqui não é só a população que não cruza a ponte para o outro lado.
“Isto de sermos todos da KFOR quer dizer pouco. Há muitas companhias que evitam combater os Sérvios porque os seus países apoiam os Albaneses”.
“Quando os Franceses estavam a ser atacados no tribunal estiveram lá sozinhos. Eu tenho um acordo com a Capitão Estónio que é meu amigo: Estamos ao lado um do outro e ajudamo-nos mutuamente. Fora disso, quando der para o torto sei que posso contar com os meus homens”.
Para além de defenderem o tribunal, os pára-quedistas dividem a segurança da parte norte de Mitrovica com Belgas e Estónios.
A região sobre a responsabilidade dos 100 homens da Companhia Portuguesa tem 7km2 no coração da zona Sérvia da cidade. Cobre a ponte de Austerlitz e a rua do Paci, um coreto usado para os discursos políticos, a Universidade que fervilha quando há decisões políticas, o tribunal símbolo da soberania disputada, o monte do monumento aos mineiros, que por aqui se vai chamando “O Barbecue”, e o hospital que se diz dirigido pelo chefe sérvio da cidade.
Apesar de tudo, é a oeste que há mais problemas. A partir do Bairro de Montmartre começa a zona mais multicultural do norte da cidade. Para além das minorias de Ascalis e Romanis – chamados Ciganos - vivem nesta zona alguns Albaneses e há muitas casa abandonadas de outros que fugiram quando começou a guerra em 1998.
Agora que Pristina declarou a independência e conta com o apoio dos grandes da Europa e dos Estados Unidos, começam a correr rumores que os Albaneses planeiam regressar às suas casas. Dizia-se que seria no Domingo passado. A tropa ficou em alerta e terá sido isso a evitar mal maiores.
“Estafamos lá nós de um lado, os Estónios do outro, e a polícia do Kosovo no meio. Não podia haver nada. Mas eles devem voltar um dia destes. Quando a situação for outra”.
A rua que termina na ponte de Austerlitz é o caminho da revolta na Mitrovica Sérvia.
Ao longa da estrada, cartazes com políticos Sérvios de olhares obstinados lembram em letras vermelhas – a cor oficial da Sérvia – a quem passa que “estamos na Sérvia”.
Não que esta gente precise. Em Mitrovica, até as crianças o sabem, recordam e explicam a quem passa e não seja de cá. Os anos de guerra incendiaram os ódios dos dois lados de tal forma que até os jovens rejeitam qualquer conciliação
Bojana, 19 anos, estudante na universidade de Mitrovica, nem pensa em passar a ponte para o outro lado Albanês. “Não regressaria mais. Os Albaneses matam-nos se passarmos a ponte”.
A presença de Belgrado na zona Norte do Kosovo, onde a população Sérvia é maioritária, intensificou-se à medida que Pristina foi consolidando a sua soberania no resto do território.
A caminho da zona de responsabilidade Belga, a Este, destaca-se um novo edifício do Ministério do Interior Sérvio, construído junto ao rio, num plano elevado para lembrar quem manda aqui aos que olham da outro lado.
Na prática, o Kosovo está dividido pelas linhas da sua população e têm surgido notícias que Belgrado e Pristina estariam dispostos repartir território para selar a paz.
O acordo foi travado pela Europa e pelos Estados Unidos. Aceitar uma independência traçada a linhas étnicas é abrir um precedente que levantaria movimentos independentistas pelo mundo fora.
O plano para o Kosovo está traçado e não aceita versões alternativas: a criação de um estado multi-étnico e respeitador das minorias.
Para cumprir o objectivo a Europa manda no próximo mês uma missão policias e juízes para formar as forças de soberania do novo Estado e muitos milhões para reconstruir o pais. A ideia é conquistar Sérvios e Albaneses pelo dinheiro e uni-los em torno de um objectivo comum: a integração na União Europeia.
Os Sérvios, porém, consideram a missão, que deverá chegar no próximo mês, ilegal. Belgrado, com o apoio da Rússia, já disse que rejeita a presença de forças internacionais que não venham para fazer cumprir a resolução 1244 das Nações Unidas que dá poderes à organização para garantir a paz no território até as étnicas cheguem a uma solução consensual para o território.
Na Mitrovica Sérvia a população espera para ver como se vai resolver o imbróglio da diplomacia. Dragoan, 30 anos, Sérvio natural de Mitrovica, diz que disso dependerá a reacção dos sérvios.
“If the European mission comes under UN’s 1244 resolution, I am sure Serbs will receive soldiers well, just like they have done before. But if they come to impose the law of Pristina, then we will fight back”.
“I will fight myself. What else can I do? I will fight for my home and for my family”.
“What we say is: If you want to be friends we will be friends with you. If you don’t we won’t”.
Na última década, Dragoan assistiu à violência dos Sérvios sobre os Albaneses em 1998 e sobreviveu aos bombardeamentos da NATO e aos assassínios em massa de Sérvios pelas mílicias Albanesas.
A vida nos Balcãs ensinou-o a desconfiar do futuro. À pergunta - o que vai se do Kosovo, dos Sérvios de Mitrovica e de si? – responde:
“I don’t think about the future. I just think about the following day. In Kosovo, the future is one week ahead the most”
Do cimo dos montes que se erguem nas costas de Mitrovica e se interpõem até à suposta fronteira com a Sérvia, o capitão Nuno Silva e os seus homens observam a cidade e traçam as suas fronteiras da sua missão.
Vista de cima ao anoitecer Mitrovica parece que se deita sem pensar na guerra. Mas ninguém aposta como será amanhã.
“Nos Balcãs tudo é possível. Hoje estão assim amanhã começam uma guerra”, diz o capitão.
Atrás dos militares surgem três jovens Sérvios de espingardas na mão. Vêm convidar a tropa para um jogo de paintball no quintal de uma casa abandonada ali ao pé.
O capitão fala com um dos rapazes com um pouco de Servo-Croata que aprendeu nas missões da Bósnia. Enquanto isso, Virgílio Santos, Nélson Melo, Paulo Aveiro, Rui Cantante, os soldados que só falam com as mãos, experimentam as espingardas. Dentro de dias, a tropa vai andar ao tiro com os Sérvios, mas só com balas de tinta.
Afinal, apesar da guerra os Portugueses são bem amados pelos Sérvios de Mitrovica. Para além do jogo de paintball até já organizaram um jogo de futebol com os comerciantes do centro.
A boa relação com a população foi obra da personalidade da tropa e do facto de Portugal não ter reconhecido o Kosovo. Na prática, fez do pais aliado dos Sérvios e da Sérvia e terá sido essa uma das razões que ajudou ao prolongamento da estadia em Mitrovica.
“A missão no Norte do Kosovo foi uma excepção. Estivemos a cumprir uma missão de presença. Nós somos uma força de reacção não devemos estar aqui empenhados”.
Daqui a duas semanas os soldados da Companhia 13 regressam a Pristina para se juntarem ao resto do Batalhão Português. Eles são a força de reserva da KFOR e têm de permanecer na capital às ordens do Comando da NATO para agir em caso de emergência em qualquer ponto do território.
Alheados do futuro mas lembrados das horas, os militares partem de regresso ao tribunal para serem rendidos por outra equipa de patrulha.
No caminho um rapaz corre à beira da estrada à frente da mãe. Os portugueses sorriem e acenam e o rapaz para e de peito cheio faz continência à tropa que passa.
